2024

Janeiro
Pátio 357 - As Sete Princesas, o Vagabundo e a Convidada
Março
Pátio 358 - Lua Cheia Poeirenta
Abril
Sra. do Monte XVII - Cometa 12P/Pons-Brooks I
Pátio 359 - Cometa 12P/Pons-Brooks II
Sra. do Monte XVIII - Cometa 12P/Pons-Brooks III
Sra. do Monte XIX - Júpiter e Urano
Maio
Pátio 360 - O céu binocular
Pátio 361 - Cometa Tsuchinshan-ATLAS (C/2023 A3) e Quasar 3C 273
Pátio 362 - Vega e companhia

Pátio 357 - As Sete Princesas, o Vagabundo e a Convidada

2024.01.06
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

O objectivo desta sessão foi testar a colimação do CN-212 e usar a função GO-TO da EM-200, mas acabou por durar mais de 5 horas, porque o céu esteve razoavelmente limpo... Já fazia algum tempo que não observava com o CN-212 na configuração Newton. Montei o aparato na frente do pátio, de onde posso ver a estrela polar, aproveitando para anotar a inclinação da equatorial, para tentar pôr a montagem o mais alinhada quando a uso na varanda virada para Sul, de onde não consigo ver a polar.

Usar o GO-TO revelou-se divertido e eficiente, especialmente útil neste céu absolutamente poluído. Esta função portou-se muito bem, acertando com uma boa precisão, e quando não era na "mouche", era lá perto. Apontei para vários objectos, passando por muitas estrelas brilhantes: O primeiro foi o planeta Júpiter que é sempre um bom alvo, que na altura, estava com o satélite Ganimede quase a iniciar o seu trânsito, passei de seguida para o planeta Urano, que estava lá perto, e por uma lista de objectos de céu profundo: galáxia Messier 33, a Galáxia NGC 891, enxame 752, a galáxia NGC 7331 (não detectada), o enxame NGC 457, galáxias Messier 31,32 e 110, a nebulosa planetária Messier 76 (não detetada), a Messier 34 e finalmente Messier 45. Escusado será mencionar que as vistas foram todas abaixo de mediocre, e alguns objectos nem sequer consegui detetar. Mas promete ser interessante quando estiver sob um céu escuro.

Para referência futura, fiz uma tabela com as ampliações das oculares que uso neste telescópio:

f/3.9 820mm 0.55" magX | campo | pupila | mag. com a Powermate 2.5x
Panoptic 24 34x | 2.0º | 6.5 mm | 12.5 mag. 85x | 47.8' | 2.5 mm | 13.5 mag.
Kasai ortoscópica 12.5 66x | 39.3' | 3.2 mm | 13.2 mag. 164x | 15.4' | 1.3 mm | 14.2 mag.
Nagler 9 91x | 54.0' | 2.3 mm | 13.6 mag. 228x | 21.6' | 0.9 mm | 14.6 mag.
Nagler 7 117x | 42.0' | 1.8 mm | 13.8 mag. 293x | 16.8' | 0.7 mm | 14.8 mag.
Takahashi CN-212
Takahashi CN-212 na configuração newtoniana
Em modo visual e fotográfico

Estava eu precisamente no Messier 45, "Plêiades" ou "Sete Irmãs", quando decidi aproveitar para fazer alguns testes fotográficos, sendo um procedimento tão simples como tirar a ocular e colocar a câmara com o corretor de coma incluido no "kit" newtoniano que é também de 2". Este é o tipo de simplicidade que aprecio, permite fazer instantâneos sem grandes complicações.

Este jovem e popular enxame, a 444 anos-luz e com uma idade de apenas 150 milhões de anos, é conhecido desde a antiguidade, e tem muitas estrelas brilhantes com nomes perfeitos para dar a gatos: Atlas, Electra, Maia, Merope, Taygeta, Pleione, Celaeno, e Asterope, todas elas azuis do tipo B, muito quentes e brilhantes. Faz lembrar uma pequena Ursa Maior.

Como este enxame é enorme e tem muitas estrelas, serviu como um bom alvo para verificar a correção do campo com Canon 6dII que cobre nesta configuração uma área de 2.5 x 1.7 graus com uma resolução de 1.44". Não corrige o campo todo, o que era expectável, mas é possível usar os 40-50% do centro da imagem. A colimação estava razoável, mas preciso é apertar tudo, e muito bem ajustado, e sem inclinação, senão resulta em coma (aberração comática) em todo o lado.

É moroso e complicado focar a f/3.82 - tive que usar uma lupa no ecrã da câmara para ajudar, e mesmo assim, não tinha muita certeza. Comparando com o f/4.52 que é a relação focal do Sky-90 com redutor, é necessária 1.4x mais tempo de exposição do que o CN-212, ou por outras palavras, seriam necessário 100 segundos de exposição no Sky-90 contra 60 segundos no CN-212 para ter a mesma quantidade de brilho no sensor, tendo este último, o dobro da resolução.

A imagem abaixo não está na resolução da aquisição, tendo sido "binada" duas vezes - na prática, quadruplicando o tempo de exposição, à custa da resolução. Esta técnica permitiu obter muita da nebulosidade presente na imagem. Também serviu para verificar que a EM-200 permite sem perdas, pelo menos 1 minuto de exposição na resolução de amostragem de 1.44", sem auto-guiamento. Dá para brincar aos astrofotografos.

Messier 45
Enxame aberto Messier 45
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 5.76" 77'x77' (bin4)
exp: 15 min. (15x60 seg.) ISO 1600

Antes de seguir para o Messier 1, passei pela gigante vermelha Aldebaran, a Alfa (α) Tauri, para mim, o "olho" do dito Touro, em cuja a constelação passei o resto desta sessão.

Aldebaran
Aldebaran (α Tau)
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" bin4
exp: 30 seg. (1x30 seg.) ISO 1600

Enviei o telescópio para a Zeta (ζ) Tauri, (Tianguan, SAO 77336), que é uma das "pontas do corno" do Touro, que na altura passava por perto o asteróide (4) Vesta de magnitude 6.7, 99.53% iluminado, que pode, em condições favoráveis, chegar a 5.1. Este asteróide, com um diâmetro de 501±24 km (o segundo maior depois de Ceres), dá a volta ao Sol cada 1325 dias e tem uma rotação de 5.342 horas. Neste momento está a 1.62 AU (242 milhões de quilómetros) e tem um movimento aparentemente de cerca 34" por hora. Está exactamente no centro da imagem.

Descoberto em 29 de Março de 1807 por Olbers, H. W. em Bremen, dando o nome da Deusa virgem do Lar e Terra da mitologia romana. Ver esta página bem completa e referenciada,

Vesta
Asteróide (4) Vesta 2024-01-07 00:14 UTC
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44"
exp: 30 seg. (1x30 seg.) ISO 1600

O remanescente de supernova Messier 1, também conhecida por "Nebulosa do Caranguejo" já foi por diversas vezes relatado e fotografado aqui no pátio, nomeadamente em 2004 na Atalaia, e em 2008 em Fronteira, Portalegre.

A Messier 1 é fácil de encontrar, pois encontra-se perto, a cerca de meio grau, da Zeta (ζ) Tauri atrás mencionada. Estive perto de 2 horas a fazer exposições desta nebulosa mas só se aproveitaram 12... As nuvens altas estragaram dúzias de exposições. E também tentar não me esquecer de pôr a câmara no modo "BULB"...

Esta nebulosa foi pela primeira vez relatada por John Bevis (1695–1771), quando estava a tentar encontrar a "estrela convidada", como os chineses da dinastia Sung lhe chamaram, e registaram em 4 Julho de 1054. Foi tão brilhante como o planeta Vénus, sendo visível em pleno dia durante 23 dias, e 30 vezes mais durante a noite. O Messier também a descobriu independentemente, quando esteve a procurar o cometa de 1758, adicionando-a em 1771 como o primeiro objecto da sua famosa lista de "não-cometas", dando posteriormente o devido crédito a Bevis.

Esta nebulosa é o que resta da explosão solar cataclísmica, por outras palavras, uma supernova, ocorrida bem perto de nós, há quase mil anos, a 2.08 (+0.78−0.45) kpc de distância segundo o Gaia EDR3 (entre 5300 e 6784 anos-luz). Tem um pulsar (PSR B0531+21) de magnitude 16 no seu centro, que está na imagem mas não resolvido, e uma nebulosa com várias massas solares de material ejectado pela a explosão, espalhadas por cerca de 10 anos-luz, expandindo correntemente (ou seja há 6000 anos atrás) a uma velocidade de 1500 quilómetros por segundo.

Os pulsares são estrelas de neutrões densas com 20-30 quilómetros de diâmetro, com períodos de rotação muito rápidos, criando um forte campo magnético e emissão em todo o espectro, que vai do rádio até aos raios gamma. O pulsar desta nebulosa gira a 30.2x por segundo! é um objecto tão extremo e próximo que não admira que tenha tantos artigos científicos, mais de 6000.

Messier 1
Messier 1
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 20'x20'
exp: 6 min. (12x30 seg.) ISO 1600

Bibliografia:


Adenda "geek"

Lupa Eschenbach 10x

Eschenbach 10x A Canon 6d que uso na astrofotografia, tem o LCD reclinável que permite visualizar as imagens, sem me obrigar a fazer posições contorcionistas, mas apenas aumenta 10x para verificar a focagem. Não é suficiente para um telescópio a trabalhar a menos de f/4, e ainda menos com o astigmatismo galopante de que padeço, agravado na visão nocturna, porque as pupilas aumentam, exacerbando ainda mais o problema.

Solução: uma lupa. Esta lupa é de 10x é aplanática (não deforma geometricamente), e se a colocar em cima do LCD, parece-me dar uma magnificação de 2x-3x, o suficiente para ter um pouco mais certeza na focagem. Provavelmente qualquer lupa serve, mas esta tem pinta e dá para por no bolso.

Takahashi Telescope Tracer 2000

Aproveitando novamente a máquina virtual do Windows 11 ARM, instalei o Telescope Tracer 2000 (Pegasus 21), um programa da Takahashi feito para o Windows 9x/NT2000/XP. Esta vetusta aplicação usa uma porta série para controlar a montagem EM-200. Já se está tornar um pouco ridículo o comboio de conversores e virtualizações para ligar à montagem - cabo série RS-232 -> conversor para USB -> conversor para USB-C, tudo isto para usar um programa Intel de 32 bits, virtualizado no Windows ARM de 64 bits, que por sua vez é virtualizado no macbook, e finalmente usa uma porta série COM duplamente virtualizada... e funciona sem se engasgar, mesmo com os dois computadores a entrar em pausa!

Também interessante, foi o macbook ter apenas gasto 20% da bateria em cinco horas e com temperaturas relativamente baixas (7-8 graus). Para as saídas de campo, apenas vou precisar de fornecer 12V à montagem, provavelmente usando a ficha de isqueiro traseira do carro como um gigantesco "powerbank".

takahashi TT2000
Telescope Tracer 2000

Pátio 358 - Lua Cheia Poeirenta

2024.03.25
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

Lua cheia empoeirada pela as areias do Sahara, registada com a câmara telefoto de 5x óptico do iPhone. O sensor desta câmara é o Sony iMX913 com um tamanho de pixel de 1.12 mícron. Clicar na imagem para resolução total.

Lua 20240325
Lua 20240325 00:26 UTC
Iphone 12MP 5x Telefoto 120mm f/2.8 14.9"
exp: 1/33 seg. ISO 640

Sra. do Monte XVII - Cometa 12P/Pons-Brooks I

2024.04.01
Sra. do Monte - Cortes (39.68N 8.75W alt. 395m)

cometa 12p P/Pons-Brooks 20240401 195723Já há alguns dias que aguardava ter uma oportunidade de ver este cometa, que neste momento, está iluminado 92%, e com a magnitude estimada em 5.1, portanto visível a olho nu em locais escuros. Na altura da imagem, estava a 1.611 AU, um pouco mais de 240 milhões de quilómetros, e a mover-se 1 grau por dia em RA e -0.6 grau em declinação (está a baixar) aproximando-se gradualmente do Sol, que já brilha um palmo bem aberto abaixo, a ceca de 27.5º.

Com um período de 71.37 anos (26068.8 dias), tem uma órbita muito semelhante ao cometa Halley (75.3 anos), aproximando-se 0.78 AU do Sol (periélio), que será 21 de Abril deste ano, e 33.6 AU no afélio, distância para lá da órbita de Neptuno. Tem uma órbita estável, pois devido à sua grande inclinação de 74.2º, passa muito pouco tempo na eclíptica (plano do sistema solar), daí ser pouco perturbada pelos os planetas.

Estará no seu ponto mais próximo da Terra (afélio) em 2 de Junho, a 1.55 AU (232 milhões de quilómetros), mas não será visível nestas latitudes.

Este cometa foi descoberto em 1812 por Jean-Louis Pons, e redescoberto em 1883 por Robert Brooks. Esta é a quarta vez que nos visita desde a sua descoberta, estando a próxima marcada para o final do século (2095)...

Apesar das condições atmosféricas, no binóculo 16x70, o coma (cabeleira) esteve perfeitamente notório(a), e em alguns momentos, pareceu-me supreendemente grande, pelo que arriscaria estimá-lo um pouco mais brilhante do que a magnitude 5.1. Com a nebulosidade, e por ainda estar no crepúsculo náutico, como bem mostra a imagem de grande campo ao lado, não me foi possível determinar muito mais.

A imagem abaixo foi registada 20 minutos depois, em que se nota, além da expectável cor esverdeada, alguns indícios da cauda. A estrela mais brilhante da imagem, com magnitude 2.0, é a alfa (α) Arietis (Hamal (na tradução direta do árabe "cordeiro") ou Aleixo), da constelação Aries, O Carneiro.

É uma gigante laranja (K2III) a 65 anos-luz, tem 14.7 vezes maior que o nosso Sol e 60x mais luminosa, apesar de ter apenas mais 50% de massa. É uma das poucas estrelas em que foi medido diretamente o seu tamanho, 0.00680 segundos de arco, equivalente a observar um penny (americano) (19.05mm), que é equivalente a mais ou menos uma moeda de 10 cêntimos (19.75mm), a 60 quilómetros de distância. E como é cada vez mais frequente, suspeita-se que tem pelo menos um (exo)planeta.

,
cometa 12p P/Pons-Brooks 20240401 195723
Cometa 12P/Pons-Brooks - 19:57:23 UTC
Canon 6DMkII 200mm f/4 6" 160'x160'
exp: 8 seg. (1x8 seg.) ISO 1600

Bibliografia e recursos:


Pátio 359 - Cometa 12P/Pons-Brooks II

2024.04.02
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

Desta vez, houve uma aberta para um registo mais detalhado. O cometa está cada vez mais baixo, existindo apenas uma pequena janela de oportunidade entre ficar o suficientemente escuro, e o começar a mergulhar na cúpula da poluição luminosa... Foi visível no binóculo 16x70, mas não a olho nu, nem sequer vislumbrei a Hamal, a alfa (α) Arietis, que tem uma magnitude de 2. Clicar aqui para ver uma imagem panorâmica.

A imagem abaixo foi processada de modo a salientar a cauda, que aparenta ter cerca de 1 grau nesta imagem.

cometa 12p P/Pons-Brooks 20240402 2008
Cometa 12P/Pons-Brooks- 20:08 UTC
Canon 6DMkII 200mm f/4 6" 80'x80'
exp: 152 seg. (19x8 seg.) ISO 800

Sra. do Monte XVIII - Cometa 12P/Pons-Brooks III

2024.04.09
Sra. do Monte - Cortes (39.68N 8.75W alt. 395m)

Desta vez, a previsão de ter o horizonte oeste mais limpo, convenceu-me a usar equipamento um pouco mais "pesado" para ficar com uma recordação mais condigna deste cometa.

Mas o objectivo principal, foi tentar observar o crescente lunar muito fino, após o eclipse solar total que atravessou o México, Estados Unidos e Canadá. Este eclipse, apenas pôde ser observado parcialmente nos Açores, que deve ter sido semelhante aquele que tive oportunidade de registar em 2017, também este parcial, que foi particularmente impressionante.

Os ocasos do Sol na Sra. de Monte, a quase 400 metros de altitude, são por vezes, momentos de rara beleza. E se puder, faço questão de chegar a tempo de os ver.

Embora as cores predominantes sejam o laranja e vermelho, por vezes surgem outras cores que não se está propriamente à espera. Neste caso a cor verde (clicar na imagem), que pode surgir imediatamente antes do Sol mergulhar no horizonte, em que a atmosfera actua como um gigantesco prisma, dispersando as cores. Este fenómeno é observado frequentemente a grandes altitudes e com uma atmosfera estável, oque não foi bem o caso. Esta página da European Southern Observatory (ESO) explica o fenómeno.

por do Sol 20240409 1908
Sol - 19:08 UTC
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 2.92"
exp: 1/4000 seg. ISO 400

A Lua ainda estava relativamente próxima do seu perigeu, que foi em 2 de Abril, a 361,270 km, apenas distanciada 13.5º do Sol, e apresentando uma fase de 1,39% iluminada pelo o Sol, correspondente a uma idade de 24 horas e 43 minutos. O brilho da luz da Terra reflectida na parte da noite lunar foi bastante óbvio - na Lua está "Terra cheia", como já tive ocasião de explicar aqui.

Este não foi propriamente um recorde. Em 2006, na S.Pedro de Moel, registei um crescente fino com 18 horas e 15 minutos (0,77%), assim como este minguante em 2004, de 20 horas e 40 minutos (0.9%), que teve honras de publicação na revista Sky & Telescope.

Lua 20240409 1949
Lua - 19:49 UTC
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 2.92"
exp: 1/4 seg. ISO 400

O cometa continua a sua visita ao Sistema Solar interior, parecendo-me um pouco maior e mais brilhante no binóculo 16x70. Em relação há uma semana atrás, está 3 graus mais próximo do Sol (24.32º). Está quase a chegar ao seu periélio a 21 de Abril. Clicar na imagem para resolução total.

cometa 12p P/Pons-Brooks 20240409 2016
Cometa 12P/Pons-Brooks - 20:16 UTC
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 2.92" 80'x80'
exp: 3 min. (12x15 seg.) ISO 800

E antes de arrumar, fotografei duas estrelas supergigantes de magnitude 0 que tornam o céu nocturno mais colorido: A Betelgeuse (alfa (α) orionis), o ombro direito do guerreiro de Orion, e a Rigel (beta (β) orionis), o seu pé esquerdo.

A Betelgeuse é da classe espectral M1-M2Ia-Iab, com uma temperatura de 3600 ± 25 K, segundo este estudo recente está a uma distância de 168 pc ± 27,15 (~548 anos-luz), tem uma massa de 16.5-19M☉ e um raio de 764 ± 116,62R☉.

Por outro lado, a Rigel (B8Iae), com uma temperatura de 12700 K, neste estudo está a uma distância de 2600 ± 200 pc (~8480 anos-luz), com uma massa solar cerca de 17M☉, uma luminosidade de 123000L☉, e um raio de 72R☉.

Ambas são muito jovens, com uma idade estimada de 8 e 10 milhões de anos respectivamente, e estão a caminho de terminar numa supernova, mais cedo no caso da Betelgeuse (300000-500000 anos), e daqui a 2 milhões de anos para a Rigel, ocasião em que vão poder atingir um brilho de -11 ou -12 de magnitude, mais de 6000x o brilho da Sirius, a estrela mais brilhante do nosso céu. As estrelas de grande massa são raras, porque têm uma vida efémera, mas para compensar, é fulgurante e terminam da maneira mais espectacular.

BetelgeuseRigel
Betelgeuse & Rigel
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 160'x160'
exp: 100 seg. (5x20 seg.) ISO 800

Bibliografia e recursos:


Outros cometas aqui no Pátio


Sra. do Monte XIX - Júpiter e Urano

2024.04.22
Sra. do Monte - Cortes (39.68N 8.75W alt. 395m)

Apesar do Cometa 12P/Pons-Brooks já se encontrar demasiado perto do Sol, tentei ainda pela última vez observá-lo no seu periélio que aconteceu no dia anterior, altura em que supostamente estaria mais brilhante. Não tive sorte, nem mesmo com o binóculo.

Mas o que realmente me trouxe à Sra. do Monte. foi uma interessante conjunção dos planetas Júpiter e Urano, que foi registada após o por do Sol, a um pouco menos de 20º deste último. A sua maior aproximação foi no dia 21 às 3:09 UTC, distando apenas meio grau (30'), com pouco mais no momento desta imagem (34').

Não consegui ver o planeta Urano no binóculo 16x70, talvez por o planeta ter uma cor esverdeada/azulada, logo, mais difícil de contrastar com o céu ainda bem azul.

Júpiter brilhava com -2.0 magnitude, com um tamanho aparente de 33.14", 5.95 AU (~890 milhões km), e Urano bem mais modesto a brilhar a 5.8, com um tamanho de 3.43", a 20.54 AU (~3000 milhões km), cerca de 3.6x mais afastado.

Os satélites de Júpiter são a partir de cima, Callisto, Ganimede, Io e Europa. Reparar nas magnitudes muito semelhantes a Urano.

por do Sol 20240409 1908
Júpiter e Urano - 19:08 UTC
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 2.92"
exp: 1/2 seg. ISO 400

Enquanto esperava por esta conjunção, o pôr do Sol passou por umas distorções atmosféricas bem interessantes. Ver o filme.

por do Sol 20240422 por do Sol 20240422 por do Sol 20240422 por do Sol 20240422

As alfas dos dois cães celestes, o maior e o menor. Sirius (alfa (α) Canis Majoris) e a Procyon (alfa Canis Minoris).

a Sirius é correntemente a estrela mais brilhante do nosso céu nocturno, com uma magnitude de -1.48, da classe espectral A0mA1Va (sub-gigante branca), com muitas de absorção indicando elementos pesados metálicos, e está situada a apenas 8.60±0.04 anos-luz. Tem um massa solar de 2xM☉ e um raio de 1.7xR☉.

A Procyon, de magnitude +0.34, é da classe F5IV-V+DQZ (sub-gigante amarela), com 1.5x M☉ e um raio de 2xR☉, está a 11.46 ± 0.05 anos-luz.

Estas duas estrelas têm uma particularidade em comum, ambas são orbitadas por um tipo de estrela, anãs brancas, que se designam também por estrelas degeneradas. São elas:

Sirius-B

Prevista existir por Friedrich Wilhelm Bessel em 1844, ao observar alterações do movimento próprio da Sirius, foi pela primeira observada por Alvan Clark em 31 de janeiro de 1862.

A Sirius-B tem uma magnitude de +11.18, sendo 116000x mais ténue que a Sirius-A. Tem uma massa de 1.018±0.011 M☉, um raio de 0.0084±3% e uma classificação espectral DA2, sendo a anã branca mais massiva que correntemente se conhece, com perto do dobro da média. A sua massa está condensada num volume semelhante ao da Terra. A temperatura à superfície é cerca 25200 K. A estrela original estima-se ter sido uma estrela tipo B com 5 M☉, que parece ter contribuído para a metalicidade da Sirius-A quando passou pela a fase de gigante vermelha. Orbita a Sirius-A num período de 50.1 anos numa órbita de 20 AU, vagamente semelhante à do planeta Urano.

Segundo o Stelle Doppie, neste momento é uma boa altura para a tentar observar, pois a separação entre os componentes A e a B está perto do máximo (11.3").

	ANO	THETAº	RHO"	ANO	THETAº	RHO"
	2023	62.5	11.333	2027	55.1	11.032
	2024	60.7	11.313	2028	53.1	10.861
	2025	58.8	11.256	2029	51.1	10.648
	2026	57.0	11.163	2030	48.9	10.392
			

Procyon-B

Mais uma previsão de Friedrich Wilhelm Bessel em 1844, órbita calculada por Arthur Auwers em 1862, e observada pela a primeira vez em 1869 por John Schaeberle no refrator de 36" do Lick Observatory.

A Procyon-B tem uma magnitude de +10.80, sendo 28500x mais ténue que a Procyon-A. Tem uma massa de 0.602±0.015 M☉, e um raio de 0.01234±0.00032 R☉, com uma classificação espectral DQZ, indicadora de uma atmosfera dominada por hélio e traços de elementos pesados. A massa original da estrela que a originou era cerca de 2.59+0.22−0.18 M☉, e terminou a sua vida cerca 1.19 milhares de milhões de anos, depois de ter tido uma vida na sequência principal 680±170 milhões de ano.

Segundo o Stelle Doppie, também se encontra numa altura favorável para observação, com uma separação de pouco mais de 5".

	ANO	THETAº	RHO"	ANO	THETAº	RHO"
	2023	338.3	4.983	2027	358.2	5.128
	2024	343.4	5.036	2028	3.1	5.141
	2025	348.4	5.077	2029	7.9	5.146
	2026	353.4	5.107	2030	12.8	5.142
				

A Sirius e a Procyon e as suas companheiras estão na minha lista de observação. A separação das estrelas, 11" e 5" respetivamente, não são propriamente o desafio, estando até ao alcance de um binóculo de 50mm, mas sim a enorme diferença de brilho, 116000x e 28500x, que dificulta enormemente a sua deteção. Outro alvo eventualmente acessível será a 40 Eridani (Omi2 Eri) "Keid". um sistema triplo com uma anã branca de magnitude 9.53 separada uns confortáveis 82".

A Antares-B, outra binária desafiante, mas com uma anã azul, foi até à data a única que consegui observar, tanto visualmente como em fotografia numa saudosa ida em 2009 ao Pulo do Lobo, Serpa.

SiriusProcyon
Sirius & Procyon
Takahashi Sky-90 f/4.5 (407mm) + Canon 6DMkII 160'x160'
exp: 100 seg. (5x20 seg.) ISO 800

Sobre as anãs brancas

As estrelas de baixa massa, como o nosso Sol, quando chegam a uma fase muito adiantada da sua vida, parecem perder o envelope de hidrogénio, resultando num núcleo de carbono e oxigénio envolvido por um envelope de hélio. Tipicamente a massa restante varia entre 0.5 e 0.7 M☉, dependendo da massa inicial da estrela e da abundância de metais na altura. A densidade é tal que os electrões do núcleo se encontram num estado degenerado.

Uma analogia interessante sobre a degeneração dos electrões é a de ser semelhante à claustrofobia humana. O que acontece é que a espaço onde a nuvem de eletrões costumavam "habitar", ou seja a sua célula, é comprimida 10000 vezes. Este grande confinamento causa uma vibração incontrolada do eletrão que se vê num espaço muito mais pequeno para existir, havendo também muitos choques com eletrões adjacentes. Segundo as leis da Mecânica Quântica, este movimento (também chamado degenerado) é imparável e irreversível. Nem sequer baixando a temperatura até ao zero absoluto.

Devido à pressão causada pelos os electrões degenerados, que não muda com a temperatura (neste caso a descer), contra-balanceia com a gravidade e faz com que estrela pare de contrair o seu volume, apenas perdendo muito lentamente o calor do seu interior para a superfície, mas num período que se estima poder durar milhares de milhões de anos para arrefecer completamente.

O interior destas estrelas não é o suficientemente quente para iniciar reações nucleares, mas ainda o quente suficiente para fornecer energia à superfície, daí as suas altas temperaturas, bem superiores à do nosso Sol correntemente. Efetivamente, deixam de ser estrelas porque já não produzem activamente energia, mas sim um remanescente (cadáver) estelar a arrefecer muito lentamente.

Estrelas de massa baixa, são as mais vulgares numa galáxia e representam cerca de 90% das estrelas na sequência principal, ou por outras palavras, as que produzem energia com fusão de H em He no seu núcleo, e posteriormente passar pela fase de nebulosa planetária, ejetando elementos para o meio interstelar, acabando eventualmente em anã branca, sendo por esse facto importantes para perceber a evolução da Galáxia e do Universo.

O livro de Kip Thorne, ver bibliografia abaixo, contém um capítulo muito interessante sobre a história da compreensão deste estágio final de estrelas que, no início do século XX, punha os astrofísicos perplexos, pela a sua temperatura e pequenez e com a elevada densidade observada. Este mistério levou o então jovem Chandrasekhar a calcular que o limite de massa máximo de uma anã branca não podia exceder as 1.4 M☉. Este também é o limite superior ao qual uma estrela pode explodir numa supernova.


Bibliografia e recursos:


Pátio 360 - O céu binocular

2024.05.01-03
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

De vez em quando, monto o binóculo Fujinon FMT-SX 16x70, num tripé e faço umas deambulações no céu do pátio virado para Sul.

Na altura, a constelação do Corvo tinha já atravessado o meridiano e decidi tentar observar a galáxia Messier 104 "Sombrero", que pertence à constelação da Virgem, mas muito próxima da fronteira com a primeira constelação.

Partindo da Spica (α Vir) e com a ajuda do Karkoschka 3 e do Interstellarum Deep Sky Atlas, que tem magnitude estelar limite de 9.5, e se revelou perfeito para comparar com as vistas de 4 graus deste binóculo. A magnitude estelar terá chegado naquele momento a pouco mais de 9, muito aquém do que o binóculo pode chegar (11), e após muita insistência, posso dar por detetada com visão indireta.

Mas no campo da vista, o que me chamou à atenção foram os dois pequenos asterismos que serviram para triangular a galáxia, que de alguma maneira, adicionaram uma estética agradável à vista. A magnificação de 16x não permitiu resolver totalmente o asterismo "Stargate", formalmente conhecido por STF 1659 ou Canali 1, com a dupla de estrelas de 7.9 e 8.3 STF 1659AB a ficar bem separada (28"), mas foi bem evidente a forma triangular formada com as duas estrelas de 6.6 magnitude, que de algum modo se assemelha ao dispositivo de viagem interstelar da série de ficção científica da década 80 do século XX, “Buck Rogers in the 25th Century”, o que diz muito da idade de quem lhe deu este nome popular. Está situada a cerca de um grau da Messier 104.

O outro asterismo, a cerca de 1/3 de grau, tem o nome popular de "Jaws" STF 1664, que é uma referência ao famoso filme do Spielberg, "Tubarão". No binóculo, é necessário uma boa dose de imaginação para desenhar um tubarão deste asterismo, sendo as ditas mandíbulas do bicho(jaws), o conjunto das 4 estrelas mais brilhantes, e o corpo delineado por estrelas de 10-11 de magnitude, que nas sofríveis condições de observação na altura, tive alguma dificuldade a vislumbrar.

Também tentei o único Messier que habita nesta constelação do Corvo, o enxame globular Messier 68, que apesar da sua magnitude integrada de 7.8, não se mostrou lá muito disponível para ser observado. Num céu um pouco mais escuro, ambos seriam fáceis de observar.


Galáxia Messier 104 "Sombrero" e asterismos "Stargate" e "Jaws"
Binóculo Fujinon 16x70 4º
Guide 9.1 e Pixelmator Pro

Entre a constelação do Corvo e a da Libra passa mais baixa, a extensa constelação da Hidra, a grande "Cobra de Água" celeste, que também alberga um solitário Messier, a galáxia Messier 83. Esta galáxia tem magnitude 8 e relativamente grande e concentrada, e estava no momento a transitar, tentei discerni-la, mas sem sucesso...

Entretanto a cabeça (ou coroa) do Escorpião já se estava a elevar o suficiente, e a caminho passei pela a alfa da Libra (α2 Lib "Zubenelgenubi") A3IV de 2.7 de magnitude, uma dupla binocular interessante, tendo como companhia (física) uma estrela amarela (F4IV) de magnitude 5.2, folgadamente separada em 231.08".

São precisos 3 campos binoculares para apreciar a totalidade das três estrelas mais brilhantes da cabeça, a beta (β1 Sco "Acrab"), a delta (δ Sco "Dschubba") e a pi (π Sco "Fang"). São visíveis muitas outras estrelas branco/azuladas brilhantes, das quais destaco a nu (ν Sco "Jabbah") e a dupla Omega 1 e 2 (ω). Estas estrelas, com excepção da ω2, são todas do espectro B e sub-gigantes, pertencendo a uma coleção de estrelas jovens (~10 milhões de anos) formadas da mesma nuvem de gás e poeira, designada por associação OB Escorpião-Centauro que se situa a uma distância média de 420 anos-luz. As associações OB são enxames muito esparsos, do mesmo tipo de estrela, que sendo O ou B têm um muito curto período de vida, podendo eventualmente perder a ligação gravitacional, se entretanto não explodirem numa supernova.

O enxame globular Messier 4 faz um triângulo com a alfa (α Sco "Antares") e a sigma (σ Sco "Alniyat") foi prontamente detetado, muito grande, apresentando alguma resolução nas estrelas na região central. Tentei ainda, mas sem grande esperança, obter um vislumbre do globular NGC 6144 lá perto, mas sem sucesso. Mais acima, o enxame globular Messier 80 embora bem mais pequeno, aparenta ser mais concentrado, e por isso relativamente fácil de distinguir. E finalmente, o enxame globular Messier 19, já na constelação de Ofiúco, que foi detetado como uma pequena nebulosidade sem qualquer resolução.


Enxame globular Messier 4
Binóculo Fujinon 16x70 4º
Guide 9.1 e Pixelmator Pro

Fui para o outro lado do pátio, o lado virado para Norte, para observar três jóias binoculares. Os enxames globulares Messier 13 e Messier 92 na constelação de Hércules, e a estrela dupla Albireo (β Cyg). Apontei primeiramente com o binóculo 7x50, e ambos os globulares foram prontamente identificados. Não consegui separar a Albireo. É sempre um prazer deambular com este binóculo na constelação da Lira.

No 16x70 estiveram perfeitos, tendo em consideração a abertura e condições de observação. A Albireo esteve muito bonita com as cores dourada e azul bem saturadas e brilhantes, a magnificação de 16x destaca bem as duas componentes, com uma vista do campo esteticamente aprazível.

Já muito próximo do zénite (-80º), o enxame globular Messier 13, pode-se considerar o globular perfeito para vistas binoculares de baixa magnificação. A 16x, aparenta ser mais pequeno que o Messier 4, mas sendo mais concentrado e compacto, apresentou alguma granulação, sem no entanto resolver nenhuma estrela, sendo as mais brilhante de magnitude 12, um pouco acima da 11.5 que teoricamente uma abertura de 70mm sem obstrução pode atingir num céu de magnitude 6 (era de ~3.5).


Bibliografia e recursos:


Sobre binóculos

Os binóculos podem proporcionar grandes momentos de observação astronómica. Apesar de ser recomendado por muitos como primeiro instrumento de observação, que de certo modo concordo, mas acho porém, que são muito mais gratificantes para os mais conhecedores do céu - as vistas de grande campo, proporcionam contexto, e uma experiência bem enriquecedora e desafiante.

Têm uma portabilidade imbatível, e é um instrumento compacto e completo, isto é, sem peças amovíveis, exceptuando talvez tampas, e com utilização fácil e intuitiva - basicamente só é necessário apontar. Adicionalmente e acima de 8x de magnificação, uso um tripé que possa colocar o binóculo a uma boa altura, acima dos olhos, (Manfrotto 055Pro) com uma cabeça do tipo rótula adequada ao peso do binóculo (Gitzo G1376M). Esta solução pesa perto de 5 quilos, incluíndo o binóculo 16x70, e permite observar (quase) até ao zénite.

Depois de décadas a usar binóculos na astronomia cheguei às seguintes conclusões:

Apesar do peso um pouco excessivo, consigo usar o 7x50 sem apoio se estiver sentado ou inclinado, e de certa forma, o peso até ajuda a mitigar os tremores, que conjuntamente com a magnificação 7x, torna possível longos períodos de estabilidade. A vista geral é muito brilhante, graças à enormel pupila de 7mm, e impecavelmente pontual e com as cores das estrelas bem brilhantes e cores saturadas, apesar de começarem a degradar-se no último terço do campo, mas já dentro da minha visão periférica, daí ser para mim pouco relevante. O campo aparente não é propriamente grande, não dando a sensação de imersão total. Para compensar, a distância da pupila é excelente para quem tem que usar óculos e é muito fácil posicionar. O binóculo pode ficar desagradavelmente frio no inverno, e tenho por vezes de usar luvas em sessões longas. Este binóculo, uma cadeira reclinável, um céu escuro e um Karkoschka = momentos inesquecíveis.

É também possível usar o 16x70 sem apoio se estiver sentado ou inclinado, mas fisicamente desconfortável, mesmo por períodos de alguns segundos. A vista geral é impecavelmente pontual até 80% do campo, mas mais escura quando comparada com 7x50. A sua generosa abertura, e especialmente a sua magnificação, já permitem vistas mais descriminadas de muitos objectos astronómicos, incluíndo a maioria do catálogo de Messier, muitos NGC, e também de muitos bonitos pares de estrelas. Graças à focagem independente de cada ocular, é possível fazer mais facilmente estimativas da magnitude de cometas relativamente brilhantes. Consigo usar com óculos (lentes finas e sem armação), mas com as borrachas das oculares dobradas, e apesar de um pouco apertado, consigo ver quase a totalidade do campo. Este binóculo é o equivalente a ter um telescópio de 70mm de abertura, com 280 mm de focal (f/4), com uma ocular de 17.5mm, em cada olho...

  Fujinon FMT-SX 7x50 (2003)
Fujinon FMT-SX 16x70 (2007)
Peso (gr) (sem tampas) 1380 1920
Dimensões (mm)
(comp. x larg. x alt.)
187 x 218 x 78.5 270 x 238 x 88.5
Campo real (º) 7.5º 131/1000 m 4.0º 70/1000 m
Campo aparente (º) 49.1 58.4
Magnitude (céu de 6) ~10 ~11.5
Resolução (") 2.3" 2"
Pupila de saída (mm) 7.1 4.4
Distância da pupila (mm) 23 15.5
Distância entre oculares (mm) 56-74 56-74
Ajuste dioptrias (mm) individual ±5 ±5
Foco mínimo (m) 9.8 51.2
Construção Todas as lentes e prismas com tratamento multi-camada EBC, alojados em tubos selados com nitrogénio, à prova de embaciamento.
À prova de água (2 metros durante 5 minutos), e com temperatura de operação entre -20º e +50º.
Acessórios incluídos Correia para por ao pescoço, tampas de objectivas, tampas de oculares, estojo rígido.
Fujinon 16x70Fujinon 7x50
Binóculos Fujinon FMT-SX 16x70 e 7x50

Há já alguns anos, escrevi um artigo sobre binóculos, que serviu como ensaio e provavelmente preciso de rever. Neste momento parece ser possível (segundos alguns fóruns da internet), encontrar binóculos com performance aceitável relativamente acessíveis. Não me importava de possuir "alfas" da Zeiss, Swarovski, Leica, Nikon, etc., felizmente pude parar nos Fujinon, e mesmo estes não se podem considerar propriamente baratos.


Bibliografia e recursos:


Pátio 361 - Cometa Tsuchinshan-ATLAS (C/2023 A3) e Quasar 3C 273

2024.05.10
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

takahashi_cn212_colim_newton O dia parecia estar a acabar com o céu relativamente limpo de nuvens, e decidi montar o CN-212 no pátio norte, para tentar acabar a colimação da configuração newtoniana a f/3.9. Após fazer o alinhamento polar e a sincronização com o SkySafari Pro do Iphone, mandei apontar para a gigante laranja Arcturo (α Boo), na qual fiz mais alguns ajustes. Pareceu-me ter ficado razoavelmente colimado.

A colimação inicial, que foi a minha primeira neste telescópio, foi feita dentro de casa usando uma estrela artificial, a Flextar de 9 microns da Pierro Astro. Demorei o meu tempo a praticar e especialmente a arranjar as ferramentas mais adequadas para poder fazer esta operação mais eficazmente em qualquer lado e no escuro.

Após fazer uns testes fazendo algumas exposições no enxame globular Messier 3 que se encontrava lá perto, troquei a câmara por uma Nagler 9 (91x), que me mostrou uma vista exemplar de um enxame globular, resolvendo bastantes estrelas, e até algumas no núcleo, apesar de suspeitar que o nevoeiro já parecia estar a começar a formar, e devido a isso a perda de algum contraste.

É a partir desta abertura (212 mm) que os enxames globulares começam a diferenciar visualmente as suas características mais particulares, como alguns padrões, as estrelas mais brilhantes, e a concentração do núcleo. A imagem abaixo é uma exposição única com apenas 30 segundos (não guiada).

m003_212f4_20240510
Enxame globular Messier 3
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 20'x20'
exp: 30 seg. (1x30 seg.) ISO 3200

Não podia perder mais tempo, e pus-me a caminho do próximo alvo. Mandei fazer dois saltos para a Spica (α Vir) e Porrima (γ Vir), tendo nesta última, a montagem ter corretamente, decidido mudar o meridiano, o que significa dar uma volta de quase 360 graus para colocar o tubo no outro lado da montagem, e que para minha satisfação, fiquei com a Porrima posicionada no meio do campo da ocular... a montagem pode não ser muito esperta, mas é bem mandada...

Cometa Tsuchinshan-ATLAS (C/2023 A3)

Este cometa, descoberto em Janeiro de 2023, parece ser um sério candidato a ser visível a olho nu quando passar o seu periélio em 27 de setembro deste ano, estando por essa altura a 0.39 AU (58 milhões km) do Sol. A maior aproximação à Terra, e provavelmente o seu pico de brilho, é a 12 de Outubro 0.472 AU (70.6 milhões km), mas já a 0.556 AU (83.2 milhões km) do Sol. Infelizmente não vai ser possível observá-lo, talvez se for mesmo muito brilhante após o pôr do Sol.

Neste momento tem a magnitude de 10.4 e está a uma distância de 1.76 AU (263 milhões km), estando a cruzar a constelação da Virgem. Mandei o telescópio para lá, e tentei observá-lo visualmente, mas sem grande sucesso. Tirei a ocular e pus a câmara.

cometa_Tsuchinshan-ATLAS_C2023_A3_20240510_2234
Cometa Tsuchinshan-ATLAS C/2023 A3 - 22:34 UTC
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 20'x20'
exp: 3 min. (6x30 seg.) ISO 1600

Quasar 3C 273

Por esta altura já se estava a formar nevoeiro, e queria pelo menos registar um famoso objecto que se encontrava lá perto.

O quasar 3c273, é o núcleo da galáxia elíptica PGC 41121, encontra-se a mais de 2000 milhões de anos-luz, isto é, para a luz que chegou agora, pois com a expansão do Universo já se deve ter afastado um pouco mais, ou nós do quasar, depende do ponto de vista.

Nos anos 60 andavam à procura da correspondência óptica de fontes emissoras detectadas pelos os radiotelescópios (que tinham pouca resolução posicional), que resultou no "Third Cambridge Catalog of Radio Sources (3C)". Em 1962, Maarten Schmidt descobriu que uma dessas contrapartidas ópticas (o 3C 273, que foi posicionado com precisão numa ocultação lunar), tinha o espectro significativamente desviado para o vermelho, mais especificamente o familiar padrão das linhas espectrais do átomo de hidrogénio, colocando o objecto a uma distância de milhares de milhões de anos-luz. Foi o primeiro de mais de um milhão entretanto descobertos.

O segundo a ser identificado como um quasar foi o 3C 48 na constelação do Triângulo, mas foi no entanto o primeiro (1982) onde se conseguiu identificar a galáxia hospedeira. Este tem a magnitude 16.2, equivalente às estrelas mais ténues na imagem abaixo, e a luz que recebemos hoje se encontrava a 3900 milhões de anos-luz. Antes da descoberta de Schmidt, os quasares (QSO) "quasi-stellar object" eram frequentemente confundidos com estrelas variáveis, especialmente os blazars, que foram classificados como "variáveis" do tipo BL Lacertae, porque são quasares com o jatos apontados diretamente para nós, e que realmente mostram variação de brilho (por vezes algumas magnitudes) no óptico em relativamente pouco tempo. Os quasars são correntemente uma subclasse das "Active Galactic Nuclei" (AGN).

Os quasares são núcleos extremamente luminosos, cerca de 100x mais brilhantes que das galáxias "normais" (espirais), e provavelmente o fenómeno mais luminoso do Universo, sendo uma (única?) explicação plausível, essa luminosidade ter origem em buracos negros super-massivos com centenas de milhares de milhões de massas solares que estão rodeados por um disco de acreção gasoso. O gás (e estrelas) à medida que vão caindo no buraco negro, aquecem, e libertam uma quantidade assombrosa de radiação electromagnética em todo o espectro, do rádio ao raios-X e até raios gama. sendo de tal magnitude que é possível observar a distâncias cosmológicas, e até mesmo com um pequeno telescópio é possível observar a parte da radiação visível, como descrevo num relato da sua observação em 2005, no Pulo do Lobo, Serpa.

A estrela lá perto tem magnitude 13.5, ligeiramente mais ténue que a magnitude 12.7-8 do quasar, que realmente tem uma aparência estelar e azul, fazendo jus ao nome dado "quasi-stellar radio source", sendo o 3C 273 o mais "brilhante" na radiação visível e também emite fortemente no Raios-X, e o mais "gritante" no rádio. Como são fontes muito distantes e muito fortes no espectro do rádio, são por isso utilizados para definir o novo sistema de coordenadas celestes usando interferometria rádio de longa linha de base, o International Celestial Reference System (ICRS). O recorde atual do mais distante pertence ao UHZ1, a cerca de 13.2 mil milhões de anos-luz, em que na altura em que luz partiu, o Universo tinha apenas 470 milhões de idade. Ler também o interessante e fundamentado artigo da wikipedia e aqui pode-se ver a obtenção do espectro do 3C 273.

quasar_3c273
Quasar 3C 273
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 20'x20'
exp: 30 seg. (1x30 seg.) ISO 1600

Bibliografia e recursos:


Pátio 362 - Vega e companhia

2024.05.18
Pátio (Leiria 39ºN 08º48'W alt. 130m)

Uma noite instável com muitas nuvens a passar e com possibilidade de chuva, mas queria continuar a melhorar a colimação do CN-212. Fazer imagem a menos de f/4 é complicado, a tolerância é muito apertada, não só na colimação do telescópio, como qualquer desvio mínimo da câmara e finalmente a focagem. Se não estiver tudo muito bem ajustado, é o suficiente para ficar com as estrelas todas "tortas". Mas quando corre bem é impressionante o que se consegue registar com apenas alguns modestos minutos de exposição. No entanto, não deixo de ficar perplexo de ainda ser possível observar qualquer coisa neste céu com magnitude 3 no máximo nas melhores regiões, estando ainda completamente rodeado de candeeiros LED. Embora entenda que para a maioria das pessoas dê a sensação de segurança, não deixa de ser um desperdício de energia.

Vega (α Lyrae)

A Vega (α Lyrae) é uma estrela importante. Não só por ser a 5ª estrela mais brilhante do nosso céu, e uma estrela de magnitude 0, mas por ser a definição e calibração da cor branca (A0) marcando o valor central na classificação da temperatura/espectro das estrelas, isto apesar de aparentar ser um pouco azulada. Por causa da precessão dos equinócios, daqui a 12000 anos vai ser a estrela brilhante mais próxima do polo celeste (5 graus), substituindo a atual Polaris. Por esta altura já deve ter ficado óbvio que acho fascinante as estrelas e esta é uma das favoritas.

Abaixo, mais uma imagem da primeira estrela a ser fotografada com um daguerreótipo, que não o Sol, há 175 anos em 1850 por James Whipple e William Bond, e também a primeira em que foi registado o espectro em 1872 por Henry Draper. O efeito de difração causado pela aranha de 4 hastes do espelho secundário adiciona muito à estética da imagem.

Vega
Vega (α Lyrae)
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 48'x48'
exp: 2 min. (4x30 seg.) ISO 800

Nebulosa planetária Messier 57

Depois de ter achado razoável a colimação, fiz um pequeno périplo na constelação da Lira, do Cisne e da Raposa, que por esta altura já se encontravam altas no horizonte. Usando o GO-TO fui tentando despistar as nuvens que por vezes surgiam em pouco minutos. Fiz exposições relativamente curtas de 30 segundos em conjuntos de 10. Recortei as imagens de modo a proporcionarem algum contexto. Clicar nas imagens para ver na resolução original.

E já agora, e porque não existe semelhante coisa como visitar demasiadas vezes a nebulosa planetária Messier 57. Não resisti.

Messier 57
Nebulosa planetária Messier 57
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 39'x39'
exp: 5 min. (10x30 seg.) ISO 800

Enxame globular Messier 56

O Enxame globular Messier 56, que apesar de se encontrar icónica constelação da Lira, não é muito popular por ser um pouco difícil de observar com pequenas aberturas. O que não admira, com estrelas membro a começarem a brilhar a partir de magnitude 13, necessitando de pelo menos 20 cm para começar a resolver algumas delas. Não sendo propriamente um alvo espectacular, sofre da enorme concorrência dos vizinhos Messier 13 e Messier 92.

A metalicidade (percentagem de elementos mais pesados) é muito baixa, de onde se pode inferir que as estrelas nasceram muito perto do início do Universo, estimando-se que há 13.7 mil milhões de anos, e à semelhança de outros globulares, julga-se que terá tido origem numa galáxia anã capturada pela a Via Láctea. Está a 10.96 ± 0.50 kpc (-35750 anos-luz).

Messier 56
Enxame globular Messier 56
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 39'x39'
exp: 5 min. (10x30 seg.) ISO 800

Enxame aberto Messier 29

O Enxame aberto Messier 29 está situado perto da Gamma Cygni (γ Cygni "Sadr"), a ~5240 anos-luz (Gaia) e segundo este estudo terá uma idade de 5±1 milhões de anos. Este enxame está "atrás" das nuvens de poeira do "Grande Rifte de Cisne" a 700–900 pc (2280-2935 anos-luz), sendo portanto muito afectado por a extinção e consequente "reddening", em que as estrelas brancas e azuis aparentam ser mais vermelhas, que de resto nota-se bem na imagem, em que a grande maioria das estrelas gigantes O e B que são membro do enxame não são propriamente brancas nem azuladas. Este é o enxame mais luminoso da associação Cyg OB1 de Cisne.

Com um tamanho visual aparente de 7 minutos de arco e várias estrelas a partir de magnitude 9, destacando-se como uma pequena concentração estelar na "Grande Nuvem de Estrelas de Cisne". É um bom alvo para o binóculo 16x70 ou telescópio de pequena abertura e baixa magnificação.

Messier 29
Enxame aberto Messier 29
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 39'x39'
exp: 5 min. (10x30 seg.) ISO 800

Asterismo Collinder 399

Segundo este estudo, o Collinder 399 é um asterismo, uma figura de estrelas não fisicamente relacionadas (têm distâncias muito diferentes), que se encontra na constelação da Raposa (Vulpecula). Devido ao seu tamanho de cerca de 1 grau e estrelas de magnitude entre 5 e 7, é conhecido desde antiguidade e torna-o num bom alvo para binóculos. Na sua ponta esquerda está um pequeno enxame aberto NGC 6802, que segundo uma estimativa usando o Gaia3 está situado a 2750 pc (~9000 anos-luz), muito mais afastado que as estrelas que constituem o asterismo, estando estas a distâncias que variam entre 235 e 1735 anos-luz. Curiosamente este enxame é também identificado como Collinder 400, um catálogo publicado em 1931.

A imagem abaixo usa quase a totalidade da área das imagens originais (152'x101'), mas foi "binada" para salientar as estrelas que dão forma de "cabide", neste caso de "pernas para o ar".

cr399
Collinder 399 e enxame aberto NGC 6802
Takahashi CN-212 f/3.82 (810mm) Canon 6DMkII 1.44" 140'x100'
exp: 4 min. (8x30 seg.) ISO 800

Bibliografia e recursos: